Estresse ocupacional - problema preocupante

Estresse ocupacional – problema preocupante

Tensões no trabalho desencadeiam uma série de doenças e inabilitam um numero crescentes de profissionais em diferentes áreas.

estresse ocupacional-artigoCapacidade de trabalhar sob pressão e com prazos apertados. Esse tem sido um dos requisitos mais frequentes nos processos de recrutamento por empresas de diferentes segmentos de atuação. Mas quem afere essa capacidade? Nem os próprios trabalhadores e ainda menos as empresas parecem capazes de garantir que os níveis de pressão no trabalho são suportáveis e inofensivos a saúde. 0 que se vê são índices de estresse ocupacional cada vez mais elevados em praticamente todo o mundo.

“Nenhum de nós está livre de estresse no trabalho. O mundo do trabalho atual — dados os desafios do progresso industrial, globalização, desenvolvimento tecnológico e comunicação virtual – nos impõe condições que excedem os limites de nossas habilidades e capacidades. O resultado é o estresse no ambiente de trabalho, que pode causar disfunções físicas, psicológicas e até sociais, prejudicando nossa saúde, minimizando nossa produtividade e até afetando nossas famílias e círculos sociais“, destacou Francisco Becerra, diretor-assistente da Organização Pan-Americana de Saúde, que pertence a Organização Mundial de Saúde. Na abertura de uma webconferéncia internacional sobre o tema, organizada pela OMS junto à Organização Internacional do Trabalho, por ocasião do Dia Mundial da Saúde e Segurança do Trabalho, em 28 de abril.

Um estudo da OIT aponta que mais de 40 milhões de pessoas são afetadas por estresse relacionado ao trabalho na União Europeia (cerca de 15% da população ativa). A Organização não apresenta dados consolidados sobre outros continentes ou países — as pesquisas na área são cada vez mais numerosas e usam diferentes metodologias.

No Brasil, de acordo com o ranking da Previdência Social, o estresse consta como um dos maiores responsáveis por afastamentos do trabalho — fica atrás apenas dos acidentes e das Lesões por Esforços Repetitivos e Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (Dorts) (LER/DORTS). Ainda de acordo com os dados da Previdência, a participação dos transtornos ansiosos e da reação a estresse grave nos motivos de afastamento cresceu cerca de 30% nos últimos três anos.

Esses dados. no entanto, dizem muito pouco da realidade. Primeiro, porque do sintoma ao diagnóstico e, finalmente, ao registro do afastamento na Previdência, há um caminho longo e tortuoso: a necessária comprovação do nexo causal é ainda mais difícil quando se trata de uma situação de estresse. quase sempre decorrente da conjunção de fatores e não de um especifico. Segundo, porque o estresse se esconde atrás de outras tantas doenças que desencadeia — até mesmo os acidentes de trabalho podem ser provocados por estresse.

Pesquisa divulgada em 2012, pela University College of London, revela, por exemplo, que o estresse ocupacional pode aumentar o risco de doenças do coração. O estudo mostrou que pessoas muito demandadas no trabalho e com pouca autonomia são 23% mais propensas a sofrer ataques do coração. Outro estudo, publicado na revista Occupational Medicine, também em 2012, destaca que a falta de autonomia no trabalho provocou estresse e Culminou em problemas de diabetes em mulheres.

A presidente do Instituto de Pesquisa e Orientação da Mente (IPOM), a psicoterapeuta Myriam Durante, aponta o estresse ocupacional como a principal causa de fibromialgias. ‘As pessoas somatizam situações mal resolvidas e começam a sentir dores por todo o corpo”, comenta. O IPOM relaciona uma serie de efeitos que o estresse provoca no corpo (ver quado ilustram) e Myriam diz que os trabalhadores devem estar atentos aos primeiros sintomas da doença: alterações no sono e no apetite, segundo ela. são os alarmes. Em junho de 2013, o IPOM divulgou uma pesquisa feita pela internet com 1500 pessoas, de 18 a 63 anos, de diferentes estados brasileiros. Quarenta e três por cento afirmaram que seu ambiente de trabalho era “péssimo”; 30% revelaram sentir-se estressados e com dores ao sair do trabalho; e 25% disseram que acumulam tarefas constantemente.

Em 2016, entre os meses de abril e maio. o Instituto de Psicologia e Controle de Stress consultou 2.195 brasileiros, de 18 a 75 anos. sendo 26% do sexo masculino e 74% do feminino. Mais de 52% disseram já ter tido diagnóstico de estresse; 55,6% sofrem de ansiedade, 23,2% tem depressão e 10,4 tiveram síndrome do panico. Mais de 34% disseram estar em nível extremo de estresse. “Esses índices são comparáveis aos de países em guerra”, alerta a presidente do Instituto. Marilda Lipp.

Segundo ela, as novas tecnologias. de certa forma, tem contribuído para aumentar o estresse no trabalho e as doenças ocupacionais. Isso porque elas impõem um ritmo mais intenso, nem sempre compatível com o bem estar do trabalhador. “A sociedade mudou e agora exige dos empregados um estado de constante prontidão. Isso pode ser muito negativo”, reclama.

Ainda outra pesquisa sobre estresse foi feita em 2015 no Brasil e apresentada em maio na conferência anual da International Stress Management Association (ISMA). em Londres. Foram ouvidos 1054 profissionais ativos no mercado de trabalho de Porto Alegre e São Paulo — homens e mulheres entre 23 e 65 anos. De acordo com a pesquisa, 72% da população economicamente ativa sofre sequela do estresse; e desse contingente, 32% disseram que o nível de estresse chega a exaustão, consolidando a chamada “síndrome de burnout” – o esgotamento físico e mental. Sessenta e nove por cento dos entrevistados revelaram que a fonte dos problemas é profissional. Como sintomas. 85% apontaram dores musculares, entre elas a cefaleia, dor de cabeça associada à tensão muscular; 63% têm dores cumulativas, que não cessam com descansos de fim de semana ou ferias e podem culminar no burnout; 41% tem distúrbios do sono; 32% tem problemas gastrointestinais; 88% tem ansiedade; 74% têm angústia; e 61% tem depressão, sendo que em 28% dos casos, as crises depressivas são recorrentes.

A pesquisa apurou as causas dos problemas e revelou que para 73% dos entrevistados a incerteza sobre o futuro – sobretudo a preocupação com a perda do trabalho e da renda – é o que mais aflige e provoca estresse. Para 68%. é a falta de tempo, decorrente de jornadas mais longas e do aumento da carga de trabalho; 59% apontaram a falta de reconhecimento – sentem-se cobrados e não recebem feedback positivo, perdendo motivação e autoestima. E 47% apontaram conflitos interpessoais.

“O pior é que o comportamento das pessoas que sofrem estresse leva a outros problemas de saúde: a pesquisa mostra que 56% tomam algum medicamento, seja com prescrição médica ou por indicação de leigos; 53% ingerem álcool ou drogas ilícitas; 35% comem mais petiscos, esses que chamamos de finger food— o aperitivo que se pega com os dedos —quase sempre industrializados e pouco saudáveis; 29% fumam. Ficou comprovado que as pessoas com estresse tem 60% mais chances de adoecer”. comenta a presidente da ISMA no Brasil.

Prevenir em vez de remediar

Para as especialistas, o maior problema em relação ao aumento do estresse na população diz respeito a forma como e tratado: “não se busca prevenção; só se atua com a doença manifesta“, diz Marilda Lipp, afirmando que o estresse evolui para a doença. gera afastamento e então e que se procura o tratamento. ”E, pior: algumas empresas tem até feito convênios para tratar o estresse. mas. quase sempre. apenas para os profissionais no nível de gerência. O chão de fabrica continua desassistido”.

Marilda aponta que, diante do medo de perder o emprego, os trabalhadores hoje tem um comprometimento muito grande e assumem as metas inatingíveis que lhes são exigidas: “ora, o trabalho não pode ser imposto assim com tanta violência”, pondera. Ana Maria Rossi corrobora: “os gestores tem um cheque em branco em que assinam o adoecimento do trabalhador. Eles precisam ter consciência disso e não delegar tarefas inexecutáveis. Eles têm que saber que o estresse de um se espalha por suas relações de trabalho e acaba prejudicando a qualidade de todo o ambiente laboral “.

Sobre a remediação, a critica vem de Myriam Durante: “as pessoas chegam a ter crises de ansiedade, com sinais parecidos aos de infarto. Elas vão parar no pronto-socorro. E recebem um tratamento que não é direcionado para o problema de cada um. É um tratamento a base de medicamentos que, quase sempre, vão ‘baixar a bola’, reduzir as energias do paciente, como forma de reduzir também a sua ansiedade. Os remédios demoram dias para fazer efeito e nem sempre é um efeito satisfatório’.

A psicoterapeuta estende a crítica às empresas, dizendo que, em geral, o máximo que fazem e oferecer uma ginástica laboral. “Isso ajuda, mas não resolve. Não elimina a causa do estresse. Assim, a empresa apenas põe um véu para dizer que esta se preocupando com a saúde do trabalhador”.

Marilda, Ana e Myriam acreditam que as soluções para o problema do estresse ocupacional vem da conscientização – tanto de gestores quanto de empregados. “O conhecimento do assunto é que vai ajudar os profissionais a identificar e acabar com as condições estressantes do trabalho”. diz Ana Maria.

Myriam Durante destaca a importância das palestras nas empresas, mas adverte que as palestras são como um show, em que os funcionários se descontraem, dão risadas, mas, no dia seguinte, estão novamente cheios de dores. ‘As palestras devem trazer conhecimento: os funcionários vão aprender o que é o estresse, como ele se manifesta, o que provoca. Assim, estarão aptos a prevenção”, garante.

Myriam menciona uma experiência que, segundo ela, está dando certo em algumas empresas. Trata-se da permissão para que os funcionários façam intervalos de 20 minutos para relaxamento, na hora em que sentirem necessidade. ”Não adianta a empresa criar uma rotina, um horário especifico
para a atividade de relaxamento, pois o organismo de cada um é diferente, cada pessoa, em cada função, vai demandar esse intervalo em um momento diferente“.

fonte: Revista Cipa – Janeiro 2017

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