Diversos fatores comportamentais interferem na percepção de riscos

olhar-atento-artigoCertamente, o maior recurso de uma organização são as pessoas. Ao mesmo tempo, este recurso tão precioso pode significar um grande risco em termos de segurança. Abordagens convencionais em gerenciamento de riscos focam especialmente em condições físicas e processos de trabalho e acabam por não considerar o elemento humano como o elo mais frágil em um trabalho de prevenção. Nossas diferenças individuais influenciam a forma como percebemos nosso ambiente de trabalho, nossas tarefas, nossas habilidades e capacidades. Com base em nossas percepções individuais tomamos decisões sobre como vamos nos comportar.  Um grande número de fatores interfere na maneira como vemos o ambiente de trabalho, bem como as nossas respostas aos riscos associados às tarefas realizadas. Fatores internos, como memória, experiência, humor e estresse, e fatores externos, como o ambiente de trabalho, a exposição e a performance, por exemplo, se combinam para influenciar a nossa percepção e as decisões que tomamos.

Quando da realização de avaliações de risco e considera ndo como encorajar comportamentos seguros no local de trabalho, precisamos ter em mente esses fatores, alguns dos quais são apresentados em seguida:

Memória
A capacidade de aprendizado varia de pessoa para pessoa. Existem diferenças na nossa aptidão para interpretar e armazenar informações. Algumas pessoas são melhores em lembrar nomes e palavras, outras pessoas podem facilmente recordar os números e muitas são melhores em reconhecer rostos ou imagens.

Conforme modelo proposto por Baddeley e Hitch, em 1974, existem vários “compartimentos” para a memória. Estes incluem a memória de curto prazo (onde as informações são armazenadas temporariamente e eliminadas ou transferidas) e a memória de longo prazo (onde as informações são mantidas permanentemente).

No entanto, o que nos lembramos nem sempre é um reflexo preciso de eventos, procedimentos ou a realidade, uma vez que:

– Nós podemos lembrar de uma imagem como um todo, mas muitas vezes não conseguimos lembrar de seus detalhes;
– Sem repetição nossa memória desaparece;
– Algumas pessoas têm uma tendência a esquecer acontecimentos desagradáveis;
– Nossa percepção sobre um evento impacta naquilo que lembramos, pois nossa memória é tendenciosa;
– Interrupções durante a aprendizagem ou realização de tarefas detalhadas podem resultar em erros mentais.

É possível perceber, portanto, que a relação entre memória e percepção é crucial. Nós, muitas vezes, dependemos de nossa memória de procedimentos e nossa lembrança de como realizamos tarefas quando nos propomos a realizar um trabalho. No entanto, se a nossa lembrança e imprecisa, decisões que tomamos sobre os riscos de segurança, com base no que lembrar e reconhecer, também podem ser falhas.

Experiências anteriores

Nossa percepção de risco também é influenciada por experiências anteriores. Muitos psicólogos acreditam que represamos memórias de experiências traumáticas. Neste caso, é possível dizer que gatilhos vitais são iniciados em decorrência de situações de risco ou inseguras ou podem também
ser inexistentes devido a ausência de perdas.

Em seu livro “Inteligência Emocinal”, Daniel Goleman descorre sobre este assunto quando trata emoções e fala sobre a amígdala que faz parte do chamado cérebro profundo, no qual primam as emoções básicas, tais como a raiva ou o medo, e também o instinto de sobrevivência. A amígdala remete às memórias do lado emocional, provocando reações assim que temos lembranças vividas de prazer ou de perigo.

Por exemplo, um estudo com colaboradores do setor de petróleo anteriormente acidentados, que trabalhavam em instalações offshore, demonstrou que a experiência de uma lesão influenciou a percepção geral do ambiente de trabalho. Eles passaram a se sentir menos seguros, visto o clima
de menor segurança. No entanto, a experiência pessoal de lesão parece aumentar a motivação do indivíduo para trabalhar com segurança.

CONHECIMENTO
As pessoas que assumem riscos não têm necessariamente menos conhecimento do que aquelas que não os assumem. Em certas ocasiões, aqueles que sabem mais tendem a julgar o risco como menor. Existe uma correlação entre o risco percebido e o conhecimento sobre as questões envolvidas com esse risco particular. A correlação é relativamente modesta, o que significa que a variação na percepção de risco não pode ser explicada apenas pela variação no conhecimento.

No entanto, vamos nos concentrar no conhecimento e informação como o principal colaborador para a gestão do risco e da segurança. Um resultado comum de investigações de incidentes é assegurar ou revisar mais treinamentos. Nós, habitualmente, assumimos que uma organização com mais especialistas é uma organização mais segura.

HUMOR
Nosso humor afeta o modo como interagimos com as pessoas ao nosso redor, como analisamos nosso ambiente e quão propensos estamos para acertar recomendações e, por consequência, a nossa percepção de risco. As pessoas bem-humoradas são, em geral, mais amigáveis, cooperativas e solidárias com os outros. Bom humor contribui para o funcionamento eficiente do negócio, na criação de um ambiente de trabalho mais agradável, além de aumentar a probabilidade de comportamentos seguros.

O humor pode causar efeitos adversos. As pessoas de mau—humor usam menos informações para a tomada decisões, são mais seletivas no que se refere às informações que prestarão atenção. São também menos detalhistas na sua abordagem para encontrar a solução de problemas mais difíceis. Como resultado, sua capacidade de gerenciar riscos de segurança pode ser reduzida.

ESTRESSE NO TRABALHO

Preocupações financeiras, pressões sobre produção e grandes volumes de trabalho influenciam o modo como percebemos os riscos de segurança. Estudos em setores como agricultura e indústria identificaram que as decisões sobre a segurança foram impulsionadas principalmente pelo efeito
sobre a produção, em vez de o risco para a saúde. As pressões reais ou percebidas e o estresse do trabalho impediram os trabalhadores de colocar em prática medidas de segurança críticas, embora eles estivessem conscientes dos perigos.

O impacto do estresse no trabalho sobre os colaboradores é perceptível. A pressão para alcançar metas pode influenciar os nossos juízos e nos prejudica na identificação e definição de controles de segurança adequados. E podemos entender isso como cultura de continuidade operacional.

PRESSÃO DO GRUPO
Percepção não se aplica apenas aos indivíduos; também se aplica quando trabalhamos em grupos ou equipes. Nós respondemos ao que nossos grupos nos definem como verdade em sua apreciação de riscos.

Se um membro da equipe que respeitamos, e que acreditamos que seja mais experiente do que nos, nos diz que uma tarefa, um equipamento ou uma área são seguros, temos a tendência a aceitar sua decisão. Se uma liderança afirma que uma rotina é segura, geralmente aceitamos, sem questionar. A maioria dos grupos tem um líder natural, que define a cultura de grupo, que nunca é questionado e sempre tem a palavra final.

EXPOSIÇÃO E CONTROLE DE RISCO

O controle sobre o nosso ambiente de trabalho é um fator que influencia grandemente a nossa percepção do risco existente. Ficamos confortáveis com atividades porque temos controle sobre as decisões e, como resultado, sentimos que é de baixo risco.

Se com ou sem razão acreditarmos que o risco é controlado, vamos diminuir a nossa classificação de risco e aumentar o nosso comportamento de risco. Seria o mesmo que dizer, por exemplo, um eletricista que realiza o bloqueio e etiquetagem de um painel elétrico, conforme uma instrução, mas deixa de fazer o teste para avaliar se existe alguma energia residual ou alguma fonte adicional não controlada.

DESEMPENHO DA SEGURANÇA
Considere uma indústria onde acidentes não são registrados por um longo período. Ha uma forte crença de que o ambiente de trabalho é seguro e que a rotinas sào adequadas para gerenciar os riscos.

Faça a seguinte pergunta: “Este é um local de trabalho seguro? ” e uma resposta típica pode ser “nós não temos acidentes e certamente devemos estar fazendo algo certo”. Mesmo nestas condições, as pessoas devem admitir que sempre há espaço para melhorias do desempenho de segurança.

Por outro lado. o bom desempenho pode também reduzir o nível de atenção e colocar pessoas em uma zona de conforto, pois não se lembram mais quando foi o último acidente e quais são as suas possíveis consequências.-

Edson Luis Pirola
Graduado em Engenharia de Materiais.
Pósgraduado em Engenharia de Segurança do Trabalho, com MBA em Gestão Empresarial e avaliação em Gerenciamento de Segurança de Processos

fonte: Reviste Cipa

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