GINÁSTICA LABORAL

GINÁSTICA LABORAL EM PAUTA

Projeto de lei prevê atividade física obrigatória em órgãos publicos vinculados à União.

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O projeto de lei 6.083/09, em fase final de tramitação na Câmara dos Deputados, estabelece que todos os órgãos e entidades da administração pública federal passem a realizar atividades de ginástica laboral com os servidores. A proposta abrange todos os trabalhadores que “exerçam atividades que envolvam qualquer tipo de esforço físico repetitivo“. Dessa forma, a cada quatro horas de trabalho, os funcionários deverão realizar dez minutos de exercícios de alongamento, orientadas por um profissional habilitado para esse tipo de atividade e contratado para esse fim. “A pausa no trabalho poderá ter efeito não só na prevenção das Dort (Doenças Orteomusculares Relacionadas ao Trabalho) causadas por esforços repetitivos, mas também naquelas em que o estresse e o excesso de trabalho são a origem da doença, pois o descanso, por menor que seja, desvia a atenção do trabalho, permite mudança de postura corporal e favorece a interação social no ambiente, que colabora para a redução do nível de estresse”, escreveu o deputado na justificativa do projeto de lei.

O projeto foi aprovado no fim de junho pela Comissão de Seguridade Social e Família e seguiu para a Comissão de Constituição e Justiça. Depois de passar por essa comissão, a matéria pode seguir para votação em plenário.

De acordo com o Ministério do Planejamento, o Brasil tem 767 mil servidores públicos federais em atividade, sendo a maioria homens (55%). Entre eles, a maioria (118 mil) tem entre 50 e 60 anos de idade.

Pausa para o descanso

Para especialistas, o intervalo de tempo entre uma pausa e outra, previsto pelo projeto a cada quatro horas, poderia ser ainda menor. “A questão das pausas é um tema muito relativo, pois é muito difícil ter um trabalhador focado e disposto em sua atividade por mais de duas horas, na maioria das vezes. É raro que alguém fique concentrado por mais de quatro horas sem parar”, diz Alexandre Silva, professor do curso de fisioterapia na Universidade Cruzeiro do Sul e que já realizou projetos de saúde laboral em empresas.

Quando o funcionário perde o foco, entra em estado de presenteísmo: fica na mesa apenas para cumprir horário ou disperso em outras atividades que não o seu trabalho, e deixa de ser produtivo. “O que as empresas precisam entender é que a pausa não é uma perda de tempo, mas um importante aliado para aumentar o rendimento dos profissionais, pois reduz o ritmo da fadiga física ou mental e provoca o aumento da concentração quando o trabalhador retorna para o seu posto”,
prossegue o professor Silva.

Para Fernando Duque, coordenador do curso de Segurança do Trabalho da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas, de São Paulo), é mais importante avaliar se a atividade será eficaz do que pensar no intervalo entre uma ação e outra. “Antes de se pensar em ginástica de uma forma generalista, seria interessante realizar um trabalho e observar quais são os esforços musculares exigidos na atividade profissional. E a partir do conhecimento dessa dinâmica, realizar um trabalho de descompressão muscular”, analisa.

Três categorias de ginastica

A ginástica laboral e dividida em três tipos: preparatória, compensatória ou relaxante. A primeira dessas categorias funciona como um aquecimento e e indicada para trabalhadores que fazem esforços físicos em suas tarefas, antes delas serem iniciadas. Seus movimentos ajudam a fortalecer os músculos usados no trabalho e aumenta a circulação sanguínea e a viscosidade das articulações, o que facilita os movimentos.

Já a ginástica compensatória é recomendada para profissionais que passam boa parte do dia sentados, seja operando máquinas ou computadores em escritórios. Os exercícios procuram movimentar músculos pouco exigidos por quem mantém a mesma postura ao longo de várias horas seguidas e relaxar outras partes do corpo que são muito exigidas por quem fica sentado, como as costas, por exemplo.

A atividade também pode ser corretiva, para ajudar os funcionários a melhorar sua postura durante as atividades e, assim, prevenir lesões por forçar a coluna ao sentar do jeito errado.

Há também a ginástica de descontração ou relaxamento, praticada ao fim da jornada de trabalho, para que os funcionários acalmem o corpo e a mente por meio de alongamento e de movimentos leves. O objetivo é oxigenar os músculos e, assim, evitar o acúmulo de ácido lático no corpo. Esse tipo é indicado especialmente para empregados que atuam sob pressão, como operadores de teleatendimento e outras posições que atuam no atendimento ao público, algo comum no serviço federal.

Problemas ergonômicos

“A pressão da população por respostas dos serviços públicos eleva os níveis de estresse e de cobrança dos servidores, que, em muitos casos, acabam sofrendo com síndrome do panico, depressão, entre outras doenças”, alerta Carla Diéguez, coordenadora do curso de Sociologia e Política da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), entidade que faz estudos sobre gestão pública.

“Boa parte do serviço público federal é administrativo. Nesta área, a incidência de LER e de Dort é maior, em boa parte pelo fato dos servidores passarem oito horas do dia sentados em cadeiras que não são ergonomicamente adequadas, com mesas fora da altura correta, sem apoios de pés e com uso intenso de computadores”, prossegue Diéguez.

A conhecida LER (lesão por esforço repetitivo) é frequente em pessoas que digitam por muitas horas ou operam máquinas fazendo movimentos similares durante o dia todo, mas também em tarefas que, à primeira vista, parecem mais tranquilas, como tocar um instrumento musical ou fazer trabalhos artesanais, tais com tricô e crochê.

O termo não se trata de uma doença em si, mas de uma síndrome que abrange um grupo de doenças, como tendinite (inflamação dos tendões, estruturas que ligam o osso ao músculo, como os do pulso), bursite (inflamação em uma bolsa de líquido do ombro, que serve como amortecedor entre musculos e ossos), epicondilite (degeneração dos tendões do pulso ou do cotovelo) e tenossinovite (inflamação do revestimento dos tendões, especialmente dos dedos e do pulso). Dores nas costas, devido à postura inadequada na hora de sentar, também são frequentes.

Desgaste no corpo todo

Essas lesões surgem não só do esforço excessivo das mãos e braços, mas do desgaste gerado no corpo inteiro ao manter a mesma posição por muito tempo e também da sensação de estresse vivida pelo profissional. Os sintomas principais são dores nos braços e nos dedos, dificuldades para mexe-los, como ao digitar, sensação de formigamento e perda de sensibilidade e da facilidade para movimenta—los. O tratamento inclui anti-inflamatórios e períodos de repouso, o que
tira o trabalhador de suas funções. Em casos mais graves, e preciso fazer fisioterapia e passar por cirurgias corretivas, o que amplia o tempo de afastamento, além da perda de qualidade de vida.

Outros problemas que podem surgir devido a más condições de trabalho são distúrbios psicológicos, como depressão, síndrome do pânico, ansiedade e o chamado “burnout”, muito frequente entre profissionais que lidam diretamente com pessoas e atendimento ao público no trabalho, como professores, assistentes sociais e atendentes.

O termo em inglês significa “consumido pelo fogo”. O profissional sente um esgotamento físico e emocional intenso e passa a apresentar problemas como agressividade, isolamento, ansiedade, tristeza, dificuldade de concentração e baixa autoestima, entre outros sintomas. Há também reflexos na parte física, como dores de cabeça, elevação na pressão arterial e problemas respiratórios e estomacais.

A adoção da ginástica laboral nas empresas brasileiras se dá em níveis muito diversos. Ha desde companhias que oferecem o mínimo necessário da prática só para mostrar aos trabalhadores que fazem algo na área até outras que têm uma atuação forte em saúde ocupacional e conseguem resultados expressivos, com menos
afastamentos e aumento da produtividade dos funcionários.

A Sabesp, companhia de saneamento básico de São Paulo controlada pelo governo do Estado, realiza atividades de ginástica laboral em varias unidades. Seus funcionários atuam principalmente em funções de atendimento ao público, que vem reclamar de erros ou problemas com a conta de água, e trabalhos operacionais para manter as redes de abastecimento de água e coleta de esgoto funcionando.

Em polos situados nas cidades do ABC paulista, próximo à cidade de São Paulo, as sessões duram 12 minutos e são realizadas duas vezes por semana. Uma pesquisa realizada ano passado mostrou que 81 % dos funcionários classificavam a atividade como boa ou ótima. A ginástica integra um programa da empresa chamado Viver Feliz, que inclui outras atividades, como apoio a funcionários que se reúnem para treinar atletismo e disputar corridas de rua.

Para todas as categorias de ginástica laboral é indicado o uso de música, para tornar as atividades mais envolventes e, com isso, garantir maior adesão dos funcionários. Eliane Polito e Elaine Cristina, autoras do livro “Ginástica Laboral – Teoria e Prática” (Editora Sprint), indicam que todas as aulas sejam acompanhadas de música. Em momentos de preparação, segundo elas, é melhor apostar em ritmos mais agitados. Nas atividades durante o expediente, a dica é colocar hits atuais e, nas aulas ao fim do turno, sons mais lentos e relaxantes. Uma sugestão e envolver os colaboradores na escolha de quais canções serão usados nas aulas.

ginasia-laboral-2Depois do inicio da prática da ginástica, Ieva alg um tempo para os resultados aparecerem: em torno de um ano. No entanto, aferir o interesse e o envolvimento dos funcionários e mais rápido: se as atividades ficam vazias, é sinal de que a ação não foi bem planejada e precisa ser revista, especialmente na questão de horários e locais. “Existem empresas que promovem alongamento dos membros superiores com o funcionário sentado, mas o colaborador passa todo o período de trabalho nessa posição. Portanto, não trabalha as estruturas musculares mais afetadas. É um exemplo de programa de ‘ginástica’ que não atende às necessidades do colaborador”, exemplifica Duque, da FMU.

A prática também precisa ser associada a outras medidas, principalmente educativas, que precisam ir além de murais e folders e envolver ações mais lúdicas e interativas, como pequenos jogos e desafios.

O Confef (Conselho Nacional de Educação Física) defende que apenas profissionais formados em educação física possam ministrar aulas de ginástica laboral e condena a prática de adotar multiplicadores. Em vários casos, entretanto, empresas contratam professores formados para ensinar os movimentos a serem feitos pelos funcionários e, depois de algumas semanas, os dispensam e escolhem funcionários para assumir a função de multiplicador e coordenar os exercicios feitos pelas equipes. Conforme aponta o Confef, essa prática é ilegal e pode trazer danos a saúde dos trabalhadores.

“O grande erro das empresas é colocar estagiários para executar uma função tão importante, e é ainda pior quando utilizam multiplicadores, um trabalhador mais engajado, para exercer a função de líder durante os exercícios. Apenas os profissionais habilitados estão aptos para identificar e orientar sobre possíveis desconfortos ou movimentos realizados de forma inapropriada”, diz Silva, da Cruzeiro do Sul. Ja Duque, da FMU, relativiza essa necessidade. “Uma vez que um profissional habilitado realiza a avaliação da atividade de cada grupo de exposição, profissionais capacitados poderiam dar continuidade ao programa, sempre sob supervisão de um habilitado.”

Embora muito elogiada por profissionais de recursos humanos e de educação física, vale lembrar que a ginástica laboral e apenas um dos aspectos que ajudam o funcionário a viver melhor. Ele também precisa cuidar da alimentação, do sono, praticar atividades esportivas e ter períodos de descanso e lazer.

“Há críticas se a ginástica laboral promove qualidade de vida. E talvez não seja esse o foco. O que interessa é o quanto ela melhora a relação do funcionário com o trabalho, o quanto ela reduz a incidência de doenças ocupacionais, entre elas aquelas voltadas para o lado psicológico”, diz Diéguez, coordenadora na FESPSP.

Aprovada a lei, surgirá outro desafio: fazer a norma “pegar” e ser adotada por todos os órgãos envolvidos. Para Duque, da FMU, uma saída será “colocar os conselhos federais e sindicatos (do funcionalismo público) na mesa de negociação com os representantes do governo, buscando um cronograma de implantação”.

Por conta dos possíveis impasses, os especialistas acreditam que uma forma de acompanhar e estimular a aplicação da lei é a criação de indicadores bem
elaborados, como a frequência dos trabalhadores nas atividades, a redução (ou não) do número e da duração dos afastamentos por problemas de saúde. “O risco de não cumprimento da lei existe se não houver indicações e fiscalização desses dados”, diz Silva, da Universidade Cruzeiro do Sul. .

fonte: Revista Cipa

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