prevenção de acidentes e ergonomia

Prática de conceitos e ferramentas para a qualidade ajudam na prevenção de acidentes e ergonomia.

Você pode, caro leitor, pensar que é possível a implementação e manutenção do 5S dissociando-o da prevenção de acidentes e da ergonomia. Você está certo em ter esse tipo de pensamento, é o que mais se vê por aí. Acontece na maioria das empresas. Podemos até dizer, sem medo de errar, que é prática recorrente. Mas está errado! Trata-se de um grande equívoco! Vou lhes contar o exemplo de uma empresa de grande porte (multinacional), que possui certificação integrada, ISO 9001 (Qualidade); 14001 (Meio Ambiente) e 18001 (Segurança). Tive acesso a investigação de um acidente de trabalho, com gravidade, que afastou o trabalhador (Mecânico) por mais de 90 dias do trabalho. O acidente ocorreu no dia seguinte, após o setor em que ele trabalhava ter passado por uma reorganização para atender uma “auditoria do 5S”. Mas, antes de conhecermos os detalhes sobre esse acidente, vamos dar uma paradinha e relembrar, para quem já conhece, ou apresentar, para quem ainda não conhece, o programa 5S. Faremos um breve histórico sobre sua origem, seus conceitos e as ações que compõe esse programa.

Origem do 5S O programa 5S surgiu no Japão após o término da 2ª guerra mundial. Esse país estava totalmente devastado, principalmente as cidades de Hiroshima e Nagasaki, que em 1945 foram totalmente destruídas por bombas atômicas. Diante desse quadro desolador, apocalíptico, de baixa autoestima de seu povo foi definida e implementada uma política nacional, com a ajuda dos americanos, para reerguer o País.

A começar pelas indústrias, que de maneira geral encontavam-se totalmente desorganizadas, desestruturadas, e seus produtos, naquele momento, eram vistos como cópias mal feitas de outros paises, com baixíssima qualidade Inegável que a injeção do capital americano em investimentos para a reconstrução do país foi fundamental, mas seria impossível obter resultados tão rápidos e eficientes se não fosse o engajamento do povo japonês, com sua cultura diferenciada e tradicional, sua consciência e responsabilidade para transformar o ambiente de trabalho em algo agradável e seguro. Dentre as ações surgiram vários métodos de gestão, o que os americanos faziam bem foi aperfeiçoado no Japão, formando- -se o que ficou conhecido como Qualidade no Estilo Japonês, ou Total Quality Control (TQC – Controle da Qualidade Total), em cuja base está o 5S, que funciona como um facilitador do aprendizado e prática de conceitos e ferramentas para a qualidade. Isso inclui cuidar dos ambientes, equipamentos, materiais, métodos, medidas, e, especialmente, pessoas. A ênfase dada nas empresas japonesas foi de assegurar a qualidade de seus produtos e serviços, através de métodos padronizados e altas doses de disciplina. O Japão passou a investir no desenvolvimento industrial e tecnológico tornando-se na década de 1970 numa grande potência econômica. Esse modelo de Gestão deu tão certo nesse país asiático que foi difundido nos demais continentes, inclusive na América Latina em específico no Brasil, por volta da década de 90, através da Fundação Cristiano Ottoni (MG).

Conceito sobre 5S e o significado  O Programa 5S é um conjunto de (cinco) conceitos que objetivam nortear comportamentos para tornar um ambiente agradável, saudável e padronizado de modo que proporcione bem estar a todos bem como qualidade nos serviços prestados. A nomenclatura 5S dada ao programa, originou-se em cinco palavras japonesas que se iniciam com a letra “S”, a saber: Seiri, Seiton, Seisou, Seiketsu e Shitsuke. Como a tradução de cada palavra do programa para o português ficaria sem sentido prático e objetivando manter os “s” nas iniciais, conforme sua origem, foi acrescido o termo “senso de” às palavras, como pode ser observado abaixo. Após essa rápida explanação sobre o programa 5S, na tabela da página ao lado, vamos voltar ao tema do acidente que falamos no início. A seguir, descrição e dados:

Características da empresa:Empresa Metalúrgica – Multinacional

Quadro de 400 (quatrocentos) funcionários Certificação Integrada: ISO 9001, 14001 e OHSAS 18001 Identificação do Acidentado Função: Mecânico Tempo na Função: 10 anos Acidente com afastamento 90 dias Acidentes anteriores: 01 sem afastamento Para análise e coleta de dados foram observados Narrativa dos fatos, visita ao local, verificação dos registros fotográficos, entrevista com o acidentado e funcionários do setor (incluindo pessoas que presenciaram o acidente) e supervisão. ◆ Descrição do Acidente Uma estante, com altura de 2m, do setor de almoxarifado da oficina mecânica (local do acidente), tombou sobre o funcionário, que se encontrava sobre uma escada retirando uma peça na parte superior da referida estante. Sem apoio, o funcionário caiu de uma altura de 1,80m sendo atingido na cabeça com partes da estante causando-lhe contusões, na cabeça, bem como fraturas na perna e punho esquerdos. Fatos que antecederam ao acidente: No dia anterior ao acidente, o setor havia passado por uma “reorganização” geral, pois na semana seguinte passaria pela avaliação de auditores do 5S, conforme programa pré definido (periodicidade semestral). Durante todo o processo de arrumação, organização, limpeza e descarte foram feitos registros fotográficos. Para os funcionários, o setor “estava dentro dos padrões 5S”, no entanto, por outro lado a percepção de riscos e perigos faziam-se imperceptíveis a todos daquele setor. Só após a ocorrência do acidente é que foram identificados os riscos e perigos existentes naquele local.

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SIGNIFICADO DE CADA PALAVRA 5S
Japonês        Tradução
1- Seiri               – Senso de Utilização
2- Seiton          – Senso de Organização
3- Seisou         – Senso de Limpeza
4- Seiketou    – Senso de Saúde
5- Shitsuke    – Senso de Autodisciplina

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“SENSO DE” O termo ‘Senso de’ significa “exercitar a capacidade de apreciar, julgar e entender”. Significa ainda a “aplicação correta da razão para julgar ou raciocinar em cada caso particular” (Lapa,1998). Cada senso visa delinear técnicas eficientes e eficazes voltadas à redução de custos, otimização de recursos materiais, tecnológicos e humanos e combate de desperdícios (Gomiero, 2007).
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1-Senso de Utilização
COMO SE DÁ A PRÁTICA Selecionar apenas o que é necessário para o ambiente ou tarefa. Em toda e qualquer situação.
CONCEITOS “Utilizar os recursos disponíveis, com bom senso e equilíbrio, evitando ociosidade e carências”
(Silva, 1996).

2-Senso de Arrumação
COMO SE DÁ A PRÁTICA Organizar os itens necessários à realização das atividades e a
disposição no ambiente.
CONCEITOS O importante, neste senso, diz respeito à organização pessoal, onde todos devem reservar
um tempo para planejar o dia de trabalho, anotar compromissos na agenda e consultá-la sempre que preciso e, também priorizar os mesmos por ordem de importância, para otimizar tempo (Lapa 1998). Esse senso, além de propiciar uma melhor condição de trabalho, também favorece tomada de ações em caráter de urgência/emergência, ao facilitar a comunicação visual e o acesso ao local da demanda (Vida, 2012).

3-Senso de Limpeza
COMO SE DÁ A PRÁTICA Realizar a limpeza e eliminar as fontes de sua origem.
CONCEITOS Este senso não é, apenas, o ato de limpar, mas e, principalmente, o ato de não sujar (Lapa, 1998).

4-Senso de Saúde
COMO SE DÁ A PRÁTICA Estabelecer boas condições de ambiente de trabalho de modo a eliminar ou atenuar riscos de acidentes e doenças desde o aspecto físico e mental. Com ênfase também nas boas relações interpessoais.
CONCEITOS A Organização Mundial da Saúde – OMS define saúde como “o completo estado de bem-estar
físico, mental e social, e não simplesmente a ausência de enfermidade”.

5-Senso de Autodisciplina
COMO SE DÁ A PRÁTICA Ter a disciplina de cumprir todos os requisitos definidos nos sensos anteriores.
CONCEITOS Ter todas as pessoas comprometidas com o cumprimento dos padrões técnicos e éticos e com a melhoria contínua em nível pessoal e organizacional
(Silva, 1996).

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Proposta pedagógica para assimilar melhor a abrangência do 5SNosso objetivo aqui é focar com um novo olhar analítico, ou seja, se estamos praticando o 5S e concomitantemente estamos sendo efetivos em fazê-lo observando as boas práticas de prevenção de acidentes e doenças ocupacionais. Dessa forma apresentamos uma nova proposta pedagógica como um dos meios que ajudará o trabalhador a incorporar a filosofia do 5S. Fazendo-o compreender, desse modo que a prática desse programa vai muito além dos sensos de utiliza- ção, arrumação e limpeza, propriamente ditos.

Por quê rever conceitos sobre Gestão em SSO? Nas auditorias de 5S dessa empresa metalúrgica, ao observarmos os dados de avaliação (percentuais de quanto estavam praticando de 5S), relativos aos quatro últimos semestres, constatamos que alguns setores apresentavam resultados de 80%, 50%, 60%, 50%, ou seja, redução substancial nas notas, enquanto que outros obtinham ao redor de 100% de forma mais linear, porém apresentavam registros de acidentes com e sem afastamentos e doenças ocupacionais com índice maior devido aos riscos ergonômicos. Diante desse quadro podemos tirar duas conclusões: a primeira é que a variação muito grande, e para pior, nos resultados demonstram que o 5S não foi bem assimilado, ficando impossível pensar em melhoria contínua (está mais para o que chamamos de estilo “serrote”); e a segunda é que não tivemos controle sobre o (possível) aumento de riscos de acidentes, pois os resultados pioraram! Fica evidente, portanto, que há necessidade de rever nossos conceitos. É preciso inserir e associar à nossa gestão de prevenção de acidentes e ergonomia ao programa 5S ao implementá-lo na empresa.

Conceição Freitas, consultora em Gestão SSO, especialista Direito do Trabalho e Ergonomia e professora de pós-graduação

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